Rússia e União Europeia ainda estão separadas pela Cortina de Ferro

O Ministro russo de Relações Externas, Sergey Lavrov, é o diplomata mais importante do mundo. Filho de mãe russa e pai armênio, ele simplesmente se encontra em outro nível. Aqui poderemos ver, mais uma vez, por que razão.

Vamos começar com o encontro anual do Valdai Club, principal think tank russo. Poderemos então seguir a apresentação imperdível do relatório anual do Valdai Club sobre “A utopia do mundo diversificado”, com a participação, entre outros, de Lavrov, John Mearsheimer (da Universidade de Chicago), Dominic Lieven (da Universidade de Cambridge) e Yuri Slezkine (da UCLA/Berkeley).

É raro poder compartilhar o que, em termos de debate político sério, equivale a uma montanha do Himalaia. Temos, por exemplo, Lieven – que, meio na brincadeira, definiu o relatório de Valdai como “Tolstoiano e um tanto anárquico” – com foco nos dois principais desafios atuais interligados: mudança climática e o fato de que “350 anos ocidentais e 250 anos de dominação AngloAmericana estão chegando ao seu final”.

No momento em que vemos a “ordem mundial atual desaparecendo em frente a nossos olhos”, Lieven chama a atenção para em tipo de “vingança do Terceiro Mundo”. Mesmo então, infelizmente, o orgulho ocidental recomeça tudo, no instante em que sintetiza a China como “um desafio”.

Ordenadamente, Mearsheimer relembra que temos vivido em um mundo sucessivamente bipolar, unipolar e agora multipolar, com China, Rússia e Estados Unidos, “Grandes Potências Políticas de volta ao cenário”.

Corretamente, ele assevera que depois da difícil experiência do “século de humilhação, os chineses asseguraram-se de que são realmente poderosos”. Isso prepara o palco para que os Estados Unidos implantem uma “política de contenção altamente agressiva”, como fizeram com a União Soviética, a qual pode perfeitamente terminar em conflito aberto”.

“Confio mais no Arnold que na União Europeia”

Nos comentários introdutórios, Lavrov esclareceu que em termos de realpolitik, o mundo “não pode ser dirigido a partir de apenas um centro”. Gastou algum tempo para enfatizar o “trabalho meticuloso, demorado e às vezes ingrato” da diplomacia.

Mais tarde, nas suas intervenções, ele disparou uma realmente bombástica(começando em 1:55:55, em russo, com acréscimo em inglês): “Quando a União Europeia fala como se fosse superior, a Rússia precisa saber: poderemos negociar com a Europa?”

Arteiramente, citou Schwarzenegger “que, nos filmes, sempre diz “confie em mim”. Bem, confio mais em Arnold que na União Europeia”.

Isso leva ao remate final: “Os responsáveis pela política externa ocidental não compreendem a necessidade de respeito de parte a parte nos diálogos. Dessa forma, teremos que temporariamente parar de falar com essas pessoas. “Afinal, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen declarou oficialmente que no que tenha a ver com a União Europeia “não existe parceria com a Rússia moderna em termos geopolíticos”.

O diplomata se estendeu em uma entrevista abrangente e esplêndida para as rádios russas cuja tradução merece ser lida no total, cuidadosamente.

Mostramos aqui um de seus mais importantes fragmentos:

Segundo Lavrov, “não importa o que façamos, o ocidente sempre tentará nos restringir, minar nossos esforços econômicos, políticos ou tecnológicos. São características de dada atitude.”

Pergunta: “Nossa Estratégia de Segurança Nacional afirma que eles agirão assim.”

Lavrov: “Claro que sim, mas é tudo articulado de maneira que pessoas honestas podem deixar de perceber, porém está sendo implementado de maneira nada menos que ignominiosa.”

Pergunta: “Você também pode associar as coisas de maneira diversa daquela que realmente gostaria de dizer, certo?”

Lavrov: “É o contrário. Claro que posso usar linguagem que normalmente não uso para explicar melhor alguma coisa. No entanto, eles claramente desejam nos perturbar, e não só com ataques diretos contra a Rússia em todas as esferas concebíveis através de competição inescrupulosa, sanções ilegítimas e coisas do tipo, mas também desequilibrando a situação em nossas fronteiras, impedindo assim que possamos nos focar em atividades criativas. Entretanto, apesar dos instintos inerentes ao ser humano e da tentação de responder da mesma forma, estamos convencidos de que temos que nos ater à Lei Internacional.”

Moscou permanece incondicionalmente alinhada à Lei Internacional – em contraste com as proverbiais “regras da ordem liberal internacional” repisadas pela OTAN e seus capangas como o Conselho do Atlântico.

Exsurge mais uma vez um relatório exortando a OTAN a “aumentar a pressão contra a Rússia”, deblaterando a “campanha agressiva de desinformação e propaganda de Moscou contra o ocidente, bem como seu aventureirismo sem controle no Oriente Médio, África e Afeganistão.”

O Conselho do Atlântico insiste novamente que esses russos danados desafiaram mais uma vez “a comunidade internacional ao usar ilegalmente armas químicas para envenenar o líder oposicionista Alexei Navalny. O fracasso da OTAN em impedir o comportamento agressivo russo coloca em risco o futuro da ordem liberal internacional.”

Só idiotas que se deixam levar por cegos que lideram a síndrome da cegueira não sabem que essas tais “regras” da ordem liberal são estabelecidas pela potência hegemônica e que podem ser mudadas de repente, de acordo com os desejos dessa mesma potência.

Não é de se admirar que uma anedota comum em Moscou é que “se você não quer ouvir Lavrov, ouvirá Shoigu”. Sergey Shoigu é o Ministro da Defesa da Rússia, supervisor de todas aquelas armas hipersônicas com as quais o complexo Industrial/Militar dos Estados Unidos só pode sonhar.

O ponto principal é que mesmo com a histeria elaborada aos montes pela OTAN, Moscou está pouco se importando, por causa de sua supremacia militar. Isso assusta ainda mais tanto Washington quanto Bruxelas.

Restaram apenas as erupções da guerra híbrida, como o assédio constante preconizado pela Corporação RAND  para “desequilibrar” a Rússia, em Belarus, no sul do Cáucaso e no Quirguistão – somadas às sanções contra Lukashenko e oficiais do Kremlin pelo “envenenamento” de Navalny.

“Não se negocia com macacos”

O que Lavrov acabou de explicitar já está em andamento há tempos. A “Rússia Moderna” e a União Europeia nasceram quase ao mesmo tempo. Pessoalmente, experimentei os acontecimentos de maneira espetacular. A “Rússia Moderna” nasceu em dezembro de 1991 – quando eu viajava pela Índia, depois Nepal e China. Quando desembarquei em Moscou através da Transiberiana em fevereiro de 1992, não havia mais União Soviética. A seguir, voando de volta a Paris, cheguei à União Europeia, nascida no mesmo mês de fevereiro.

Uma das lideranças do Valdai questiona corretamente que o conceito audacioso da “Europa estendendo-se de Lisboa a Vladivostok”, cunhado por Gorbachev em 1989, logo antes do colapso da União Soviética infelizmente “não teve acordo ou documentação que a apoiasse.”

E sim, “Putin, continuadamente, de 2001 até 2006, procurou insistentemente uma oportunidade para implementar uma parceria e aproximação mais acentuada com a União Europeia.”

Todos nos lembramos quando Putin, em 2010, propôs exatamente o mesmo conceito, um território comum de Lisboa a Vladivostok, e foi completamente desprezado pela União Europeia. É importante lembrar que isso aconteceu quatro anos antes que os chineses concluíssem sua ideia da Nova Rota da Seda.

Depois disso, só se caminhou ladeira abaixo. O último encontro Rússia/União Europeia aconteceu em Bruxelas em janeiro de 2014. Em termos políticos, uma eternidade.

O portentoso poder de fogo intelectual reunido em Valdai está bem consciente que a Cortina de Ferro 2.0 entre Rússia de União Europeia não vai simplesmente desaparecer.

Tudo enquanto o FMI, The Economist e até o defensor da falácia de Tucídidesadmitem que neste momento a China já é, de fato, a maior economia mundial.

A Rússia e a China compartilham uma imensa fronteira. Estão engajados numa “parceria estratégica abrangente” complexa e multifacetada. Esta parceria não se desenvolveu por causa do distanciamento entre Rússia e União Europeia/OTAN, que teria forçado Moscou a se virar para o Oriente, mas principalmente porque uma aliança entre vizinhos que são a maior economia mundial e o maior poder militar mundial faz todo o sentido para a Eurásia – geopolítica e economicamente.

Corrobora-se assim o diagnóstico de Lieven sobre o fim de “250 anos de predominância AlgloAmericana.”

Restou para o inestimável analista militar Andrey Martyanov, cujo último livro resenhei  e considerei como leitura imperdível, fazer a leitura mais deliciosamente desvastadora do momento “tínhamos o suficiente” de Lavrov:

“Qualquer discussão profissional entre Lavrov e um antigo ginecologista (na verdade, epidemiologista) como van der Leyen, e pode incluir aí o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Maas, advogado e verme partidário da política alemã é perda de tempo. Ocorre que as “elites” e os “intelectuais” ocidentais simplesmente estão situados em nível diverso, bem mais baixo do que Lavrov disse. Não se negocia com macacos. Você os trata bem, assegura que não sejam explorados, mas não negocia, assim como não se negocia com crianças. Eles querem fazer de Navalny seu brinquedo – deixe. Conclamo a Rússia a encerrar suas atividades econômicas com a União Europeia por longo tempo. Eles compram hidrocarbonetos e alta tecnologia, tudo bem. Por outro lado, qualquer outra atividade deve ser dramaticamente reduzida e não se deve mais questionar a necessidade da Cortina de Ferro.”

Da mesma forma que os Estados Unidos são “incapazes de acordo” acontece também com a União Europeia, conforme afirma Lavrov: “Devemos parar de nos orientar para os parceiros europeus e tomar cuidado com suas apreciações.”

Não é só a Rússia que sabe disso: a grande maioria do Sul Global também sabe.

Pepe Escobar

Artigo original em inglês : Iron Curtain still separates Russia and the EU ‘When the European Union speaks as a superior, Russia wants to know: Can we do any business with the EU?’ Asia Times, 21 de Outubro de 2020.

Tradutor : Roberto Pires Silveira

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Trinta biliões do ‘Recovery Fund’ destinados aos militares

Enquanto a “crise do Coronavirus” continua a provocar consequências socio-económicas devastadoras, também em Itália, uma grande parte do “Fundo para a Recuperação” é destinada não aos sectores económicos e sociais mais atingidos, mas aos sectores mais avançados da indústria bélica.

De acordo com o Fundo de Recuperação, a Itália deveria receber € 209 biliões nos próximos seis anos, dos quais cerca de 81 como subsídios e 128 como empréstimos a serem reembolsados com juros.

Entretanto, os Ministérios da Defesa e do Desenvolvimento Económico apresentaram uma lista de projectos de carácter militar no valor de cerca de 30 biliões de euros (Análise da Defesa, Fundos também para a Defesa do Fundo de Recuperação, 25-09-2020). Os projectos do Ministério da Defesa prevêem atribuir 5 biliões de euros do Fundo de Recuperação para aplicações militares nos sectores da cibernética, das comunicações, do Espaço e da inteligência artificial. Os projectos relativos ao uso militar da 5G são significativos, principalmente no Espaço, com a concretização de uma constelação de 36 satélites e outros.

Os projectos do Ministério do Desenvolvimento Económico, relacionados, sobretudo, com o sector aeroespacial militar, prevêem uma despesa de 25 biliões de euros do Fundo de Recuperação. O Ministério pretende investir num caça da sexta geração (a suceder ao F-35 de quinta geração), o Tempest, denominado “o avião do futuro”. Outros investimentos dizem respeito à produção de helicópteros/tilt rotors militares da nova geração, capazes de decolar e aterrar na vertical e voar a alta velocidade.

Ao mesmo tempo, irá investir em drones e unidades navais da nova geração e em tecnologias submarinas avançadas.Também são esperados grandes investimentos no sector das tecnologias espaciais e de satélite. Várias dessas tecnologias, entre as quais se destacam os sistemas de comunicação 5G, serão usadas com um duplo objectivo – militar e civil. Visto que alguns dos projectos militares apresentados pelos dois departamentos se sobrepõem, o Ministério do Desenvolvimento Económico elaborou uma nova lista que permitirá reduzir as suas despesas em 12,5 biliões de euros.

No entanto, permanece o facto de que se está a programar gastar uma quantia que varia  de 17,5 a 30 biliões de euros retirados do Fundo de Recuperação para fins militares, que devem ser reembolsados ​​com juros. Além desta quantia, há mais 35 biliões destinados a fins militares e a serem gastos pelos governos italianos durante o período 2017-2034, sobretudo, no orçamento do Ministério do Desenvolvimento Económico.

Esta verba soma-se ao orçamento do Ministério da Defesa, elevando a despesa militar italiana para mais de 26 biliões de euros por ano, equivalente a uma média de mais de 70 milhões de euros por dia, em dinheiro público subtraído às despesas sociais. Cifra que a Itália se comprometeu com a NATO a aumentar para uma média de cerca de 100 milhões de euros por dia, de acordo com o que foi solicitado pelos Estados Unidos.

A atribuição para este efeito de uma grande parte do ‘Recovery Fund’ permitirá à Itália atingir este nível. Na primeira fila, entre as indústrias militares que pressionam o governo a aumentar a fatia militar do Fundo de Recuperação, está a empresa Leonardo,da qual o Ministério do Desenvolvimento Económico possui 30% das acções. A Leonardo está integrada no gigantesco complexo militar-industrial USA, comandado pela Lockheed Martin, construtora do F-35 em cuja produção participa essa mesma empresa Leonardo, através da sua fábrica em Cameri.

A Leonardo que se autoproclama “protagonista mundial no Aeroespaço, na Defesa e na Segurança”, com a missão de “proteger os cidadãos”, demonstra como pretende fazê-lo, ao usar a sua influência e poder para roubar aos cidadãos, recursos vitais do “Fundo de Recuperação”, a fim de conseguir uma maior aceleração da “recuperação” da indústria bélica.

Recursos que seremos sempre nós a pagá-los, acrescidos de juros. Pagaremos assim, “o avião do futuro”, que nos protegerá, assegurando um futuro de guerra.

Manlio Dinucci

Artigo original em italiano :

Dal Recovery Fund 30 miliardi per il militare

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcello

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O presidente doidão contra o democrata demente

O planeta inteiro está estupefato, espantado, chocado e aterrorizado com o espetáculo da democracia desvelado nas sombras do imperialismo messiânico – acrescente um monte de surpresas asquerosas tipo “bala de prata” de outubro.

Estamos dentro do território de Frank Underwood. Para ficar de acordo com o suprassumo da “Sociedade do Fingimento” retratado por Baudrillard nos idos dos anos 80, todas as semelhanças com um espetáculo de Vale Tudo não são, por óbvio, mera coincidência.

Comecemos com as pesquisas

Todos os tipos de pesquisas circulam por aí como dervixes sufistas rodopiantes. A maioria delas espelha os democratas trilhando o caminho da vitória e apontam uma inevitável Rota do Inferno para Trump. Uma pesquisa feita pelo The Economist dá a Joe “Walking Dead” Biden estonteantes 91% de chance – lembram de Hillary, em 2016? – de vitória no Colégio Eleitoral.

Exsurge um consenso impulsionado pelos Democratas de que Trump – inapelavelmente descrito como um proto-fascista perigoso e alucinado, prejudicial aos negócios mundo afora – não aceitará os resultados em quaisquer estados norte-americanos com tradição Republicana no qual ele venha a ser derrotado por margem pequena, como Arizona, Flórida, Michigam, Carolina do Norte, Pensilvânia e Wiscosin.

Ocorre que no desenrolar da campanha a história é diferente. As evidências mostram que nos comícios dos “Walking Deads” há mais pessoas que surgem dos ônibus de Biden que eleitores do Partido Democrata em carne e osso. A campanha Biden/Harris, mostrando sua perícia em Relações Públicas, tratam esses comícios como segredos de campanha.

Aparentemente, o próprio presidente revelou a estratégia de longo prazo de sua equipe: “daqui a dois anos ainda estaremos contando votos … se voltarmos ao Congresso, a vantagem é nossa. Penso em algo por volta de 22 a 26, uma vez que se conta um voto por Estado.”

É uma referência à 12ª Emenda à Constituição: se eleitores de determinado estado não conseguem chegar a um resultado quanto ao vencedor, a decisão vai para a Câmara. Ali, todos os estados têm direito a apenas um voto. Pensem que estados controlados pelos republicanos com Alasca, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Wyoming (todos com apenas um representante [republicano] na Câmara) tem o mesmo peso que California (que tem 52 representantes na Câmara, dos quais 45 são democratas).

Trump leva vantagem: no cenário atual, seriam mesmo 26 a 22, com dois – Pensilvânia e Michigam – em tese empatados.

Pergunte aos quant(1)

Enquanto as próprias pesquisas internas do Partido Republicano indicam que os Democratas ainda não estão batendo de porta em porta, os entusiastas de Trump enxameiam nas casas, já tendo atuado em cerca de 20 milhões de residências nos estados indecisos.

Junte a isso uma nova pesquisa Gallup indicando que 56% dos (norte)americanos consideram estar melhor sob Trump do que estiveram anos atrás sob Obama/Biden. Você pode apelidar isso de “a volta do ‘é a economia, estúpido’”

O Grupo Trafalgar – que previu corretamente a eleição de 2016 – aposta que Trump vencerá por pouco o Colégio Eleitoral, com 275 votos.

O principal analista quantitativo do JPMorgan mapeou exaustivamente as mudanças entre eleitores registrados para negar quase quaisquer pesquisas que apontem para uma vitória folgada dos Democratas. Isso quer dizer que Trump pode perfeitamente acabar vencendo na Santíssima Trindade: Pensilvânia (20 votos), Flórida (29 votos) e Carolina do Norte (15 votos).

Como cereja do bolo, nada mais inesperado que um buraco negro massivo engolindo uma estrela aconteceu nesse outubro de surpresas, na última semana: a CNN de repente resolveu fazer jornalismo e estraçalhou Nancy Pelosi diante das câmeras.

Isso pode ser de mau agouro para a presidente-na-espera Kamala Harris, a qual, como poucos recordam, foi ungida como herdeira do eixo Obama/Pelosi em reunião secreta no verão de 2017.

Sigamos o dinheiro

Vamos seguir o dinheiro.

É brincadeira de criança. Para os republicanos, o homem da grana é o esquematizador de cassinos Sheldon Adelson – que literalmente comprou o Congresso por uma mixaria de $150 milhões de dólares. Já para os democratas, o dono da burra é Haim Saban – que tem seu próprio think tank e é a pessoa que socorre Hillary quando esta necessita de numerário. Essencialmente, o demente democrata é o operador do “homem da mala”.

Só para melhorar as coisas, tanto Adelson quanto Saban são defensores ferrenhos de Israel-acima-de-tudo. Um agente de Inteligência dissidente bateu no fígado: “O mafioso Sheldon Adelson financiou Trump porque o achou melhor para Israel, embora Israel favorecesse Hillary”.

Há quatro anos, fontes fidedignas de Nova Iorque com as quais eu tinha contato acertaram o resultado das eleições com dez dias de antecedência.

Uma delas, magnata de Nova Iorque intimamente ligado aos Mestres do Universo que controlam Wall Street, também foi na jugular:

“O Estado Profundo governa tanto Republicanos quanto Democratas. Trump teve que trabalhar dentro do sistema. Ele sabe disso. Sou amigo de Donald e sei que ele quer fazer a coisa certa. Mas ele não manda. Claro que ele quer relações amistosas com Rússia e China. Ele é um homem de negócios. Quer negociar com eles, não lutar. Nós traçamos as linhas mestras da campanha dele em 2016: parar a manipulação e moedas que destrói as indústrias domésticas; cessar a imigração ilimitada que acaba com os salários das classes baixas e encorajar a distensão com a Rússia e a China. A grande maioria dessas coisas não aconteceu nos últimos quatro anos.”

Há gente de Nova Iorque que acrescentaria: “de um jeito ou outro, Trump fez 90% do que eles queriam. É melhor ter no poder um rufião conhecido e manter os proletários andando em círculos.”

Na frente financeira, há coisas que jamais verão a luz: Wall Street, mesmo mantendo uma fachada favorável aos Democratas, não está minimamente interessada numa vitória Democrata “retumbante”, desde que isso significaria queda imediata em ações da bolsa em Wall Street. Da mesma forma com uma eleição que pudesse ser contestada ou postergada – e nesse caso Goldman Sachs prevê um cenário de pesadelo no qual o índice S&P cairia para apenas 3100 pontos.

Então, devagar com o andor, este é o cenário preferido por Wall Street: Trump vence e produz mais cortes generosos de impostos – paralelamente, o sentimento em Wall Street é que Trump continuará a despejar dinheiro às mancheias aconteça o que acontecer. Afinal, na realidade a única “política” real é que Wall Street transformou o Fed em um fundo de investimento livre.

Por sua vez, algo que a equipe de Trump com certeza não quer é o Grande Reinício (Great Reset, no texto em inglês – nt) – a ser oficialmente lançado no encontro virtual de Davos em janeiro de 2021.

Tudo isso acontece simultaneamente, enquanto Goldman Sachs, mais uma vez, alerta estridentemente que a única maneira de “salvar” a nação de sua dívida portentosa e eternamente prestes a explodir é a desvalorização do dólar.

Hillary quer outro emprego

No teatro de sombras – ou plano de luta livre sem regras – do conflito de Trump contra o Estado Profundo (Deep State, no texto em inglês – nt) outro dos atores novaiorquinos confirma que “Trump nunca teve permissão para cumprir parte substancial de sua própria agenda o que demonstra onde está o poder real. Na medida em que ele dá tudo o que pedem, que seja o aumento de um orçamento militar já gigantesco, o complexo Militar/Industrial quer a vitória de Trump. Já Biden se recusa a assumir tal compromisso.”

Como “apenas obedeciam ordens” Clapper, Brennan Comey e Mueller estão sendo protegidos. Quanto à hiena belicista e narcisista chamada Hillary Clinton, esta precisa que Biden/Harris vençam, para, entre outras coisas, escapar da cadeia, desde que se cumpra um acordo “secreto” entre ela e Obama, que a forçou a se manter distante enquanto o ex-presidente assumia como líder de fato da vasta máquina política do DNC (Democratic National Committee – Comitê Nacional Democrata – nt).

Qualquer um que tenha um cérebro em atividade e more em Beltway tem consciência de que o Walking Dead foi escolhido justamente porque mal se qualifica como capacho dos poderosos. Admitindo-se que ele vença as eleições, o poder real por trás do trono será o eixo Obama/Pelosi – e seus mestres suspeitos de sempre. Seja muito bem vindo ao reinado da Presidente Kamala.

Hillary, claro, não dá ponto sem nó, dobra as apostas e não faz prisioneiros. Acabou de divulgar um manifesto de 5000 palavras que pode ser entendido como uma candidatura a chefia do Pentágono.

Todos esses planos e contra planos não afetam os padrões principais do Estado Profundo, que continuam inabaláveis. Compreende-se então que o pântano proverbial do Distrito de Columbia continua a proteger suas crias. Além da possibilidade real de que Trump sequer é qualificado para escolher seus subordinados, acrescente-se que na verdade não lhe foram dadas opções decentes: teve que lidar com espécimes do naipe de Gina “rainha da tortura” Haspel, O Bigode Belicoso de John  Bolton e Mike “nós mentimos, nós enganamos, nós roubamos” Pompeo.

O que nos leva ao Procurador Geral William Barr – e a uma questão resiliente em muitos corredores da Beltway: qual a causa da falta de indiciamentos mesmo quando se amontoavam as evidências de malfeitos relacionados ao Estado Profundo.

Muito simples: Barr é ao mesmo tempo parte da CIA e da gang do Velho pai Bush, recrutado quando ele ainda cursava o ensino médio em 1971. Quando seu mentor se tornou diretor da CIA em 1976, Barr adentrou no Departamento Jurídico da CIA e a partir daí sua carreira decolou, culminando em 1991 com a nomeação para a Presidência da Consultoria Jurídica sob o Presidente Bush.

Nem é preciso dizer que Barr a seguir impediu quaisquer eventuais investigações contra Bush, Clinton e demais operadores da CIA, desde o BCCI até o roubo do software da PROMIS.

Não haveria voluntários dispostos a desvendar porque Trump escolheu Barr – ou como o Estado Profundo fez isso acontecer. O fato é que Barr foi alçado logo depois da morte de Papai Bush. Com ou sem os 33.000 e-mails deletados de Hillary, é muito pouco provável que Trump “tirasse” do pântano o agente da CIA William Barr

São esses fatos que levam aqueles jogadores em Nova Iorque a apostar que Barr não acionará suas baterias contra qualquer estrela na galáxia do Estado Profundo.

Mas permanece o fato de que a NSA (Agência de Segurança Nacional – nt) armazenou todas as chamadas, conversas ou e-mails em suas massivas Torres de Servidores (Servers Farms no texto em inglês – nt) e que Trump tem o poder de ordenar a divulgação de tudo – o que na realidade já fez. Mesmo assim, aos proletários foram oferecidas apenas pobres narrativas sobre espécies animais ameaçados, tipo WWF (World Wide Fund [for Nature]).

 

“Voltei” – em esteroides

A balcanização total da cultura dos Estados Unidos encerrada em containers blindados de irracionalidade impede quaisquer possibilidades de debate civilizado. O que resta é uma proliferação interminável de maus atores, exércitos de trolls pagos, robôs, ultraje da massa embrulhado como se fosse barras de chocolate e a histeria geral.

Aconteça o que acontecer, esteja pronto para um massacre tipo Kill Bill logo à frente.

Neste fogo cruzado – não apenas metafórico – aparece John Lydon, também conhecido como Johnny Rotten, lenda do Sex Pistol e milionário residente na melhor parte de Venice Beach, Los Angeles. Ele votará em Trump.

Para o Presidente Trump, é a consagração – mesmo que Trump esteja mais para Village People (“Young man/ there’s no need to feel down” – não é preciso se sentir arrasado, meu jovem – nt) que o Sex Pistols em “Holidays in the Sun” ou os Dead Kennedys em “Holiday in Cambodia”.

Dica para o POTUS (Presidente Of The United States – Presidente dos Estados Unidos – nt) doidão na Flórida: “Estou de volta” em esteroides, trabalhando a multidão excitada como um profissional, atingindo o clímax em passos da dança YMCA na finalização: “I’ll kiss the guys, and the beautiful women…” (Beijarei os manos e as mulheres bonitas… – nt).

Faça a comparação com o “Zé Dorminhoco” (Sleepy Joe, no texto em inglês – nt) em Ohio, encarando, bem, ninguém, na realidade: “I’m running as a proud Democrat … for the Senate”. (Estou concorrendo como um orgulhoso candidato Democrata… ao Senado (!) – nt)”

Semana passada, uma incontável multidão de oito pessoas compareceu em um comício Biden/Harris no Arizona.

A palhaçada continua inabalável enquanto uma pandemia com taxa de mortalidade de mais ou menos 0,14% – de acordo com estimativas da própria Organização Mundial de Saúde – está custando à economia global nada menos que espantosos $28 trilhões de dólares, de acordo com o FMI.

Antes que eu me esqueça: só termina quando Britney, a magrela, cantar “I did it again” …

Artigo original em português :

POTUS Punk vs. Dem Dementia

Strategic Culture Foundation 15 de Outubro de 2020

Tradução de btpsilveira

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Gasoduto explosivo no Mediterrâneo

No Mediterrâneo Oriental, em cujas profundezas foram descobertas grandes jazidas offshore de gás natural, está em curso um contencioso acirrado sobre a definição de zonas económicas exclusivas, dentro das quais (até 200 milhas da costa) cada um dos países costeiros tem o direito de explorar essas reservas.

Os países directamente envolvidos são a Grécia, a Turquia, o Chipre, a Síria, o Líbano, a Palestina, Israel, (cujas jazidas, nas águas de Gaza, estão nas mãos de Israel), o Egito e a Líbia. O confronto é particularmente tenso entre a Grécia e a Turquia, ambos países membros da NATO. A aposta em jogo não é apenas económica.

A verdadeira discórdia que se joga no Mediterrâneo Oriental é geopolítica e geoestratégica e envolve as grandes potências mundiais. Neste âmbito insere-se o EastMed, o gasoduto que trará para a União Europeia grande parte do gás desta área. A sua realização foi decidida na cimeira, realizada em Jerusalém em 20 de Março de 2019, entre o Primeiro Ministro israelita Netanyahu, o Primeiro Ministro grego Tsipras e o Presidente cipriota Anastasiades.

Netanyahu salientou que “o gasoduto se estenderá de Israel à Europa através do Chipre e da Grécia” e Israel tornar-se-á assim uma “potência energética” (que controlará o corredor energético para a Europa), Tsipras sublinhou que “a cooperação entre Israel, a Grécia e o Chipre, na sexta cimeira, tornou-se estratégica».

Esta cooperação é confirmada pelo pacto militar assinado pelo governo de Tsipras com Israel há cinco anos (il manifesto, 28 de Julho de 2015). Na cimeira de Jerusalém (cujas actas, publicadas pela Embaixada dos EUA no Chipre),esteve presente Mike Pompeo, Secretário de Estado americano, sublinhando que o projecto EastMed lançado por Israel, pela Grécia e pelo Chipre, “parceiros fundamentais dos EUA para a segurança”, é “incrivelmente oportuno”, já que “a  Rússia, a China e o Irão estão a tentar colocar os pés no Oriente e no Ocidente”.

A estratégia dos EUA é declarada: reduzir e finalmente bloquear as exportações do gás russo para a Europa, substituindo-as por gás fornecido ou, de outra forma, controlado pelos EUA. Em 2014, eles bloquearam o SouthStream, que teria trazido através do Mar Negro gás russo para a Itália a preços competitivos, e estão tentando fazer o mesmo com o TurkStream que, através do Mar Negro, transporta o gás russo para a parte europeia da Turquia para fazê-lo chegar à União Europeia.

Ao mesmo tempo, os USA tentam bloquear a Nova Rota da Seda, a rede de infraestruturas concebida para ligar a China ao Mediterrâneo e à Europa. No Médio Oriente, os USA bloquearam com a guerra o corredor de energia que, segundo um acordo de 2011, teria transportado o gás iraniano através do Iraque e da Síria para o Mediterrâneo e para a Europa. A esta estratégia junta-se a Itália, onde (na Apúlia) chegará a EastMed que também levará o gás para outros países europeus.

O Ministro Patuanelli (M5S) definiu o gasoduto, aprovado pela União Europeia, como um dos “projectos europeus de interesse comum”, e a Subsecretária Todde (M5S) levou a Itália a aderir ao East Med Gas Forum, sede de “diálogo e cooperação” sobre o gás no Mediterrâneo Oriental, do qual participam – além de Israel, da Grécia e do Chipre – o Egipto e a Autoridade Palestina. Também participa a Jordânia, que não tem jazidas de gás offshore no Mediterrâneo, mas que o importa de Israel.

No entanto, estão excluídos do Fórum, o Líbano, a Síria e a Líbia, a quem pertence parte do gás do Mediterrâneo Oriental. Os Estados Unidos, a França e a União Europeia anunciaram, previamente, a sua adesão. A Turquia não participa devido ao diferendo com a Grécia, que a NATO, no entanto, se compromete a resolver: “delegações militares” dos dois países já se reuniram seis vezes na sede da NATO, em Bruxelas. Todavia, no Mediterrâneo Oriental e no vizinho Mar Negro, está em curso um destacamento crescente de forças navais dos EUA na Europa, com sede em Nápoles Capodichino.

A sua “missão” é “defender os interesses dos Estados Unidos e dos Aliados e desencorajar a agressão [‘russa’]” e a mesma “missão” para os bombardeiros estratégicos americanos B-52, que sobrevoam o Mediterrâneo Oriental acompanhados por caças gregos e italianos.

Manlio Dinucci

Artigo original em italiano :

Gasdotto esplosivo nel Mediterraneo

ilmanifesto.it

Tradutora : Maria Luísa de Vasconcellos 

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O Bolsonarismo chegou na Suíça?

Na madrugada desta última segunda-feira, dia 21 de setembro, um grande número de jovens do movimento da Greve pelo Clima na Suíça, ocupou a Praça Federal em Berna, situada em frente ao Palácio Federal – daí seu nome – sede do Governo e do Parlamento da Suíça. Os jovens montaram diversas barracas e estruturas onde podiam se realizar encontros e pequenos eventos. Esta ocupação foi extremamente bem organizada e respeitosa das condições atuais em que nos encontramos – praticamente TODOS os jovens e envolvidos na ocupação usavam máscaras devido à pandemia do COVID-19. O principal objetivo desta ação era atrair a atenção para a urgência da crise climática e exigir do Governo Suíço medidas concretas contra o aquecimento global. Como escrito no documento que apresenta as exigências  do movimento ( ver em inglês em: Rise Up for Change)

“ Já fazem muitos anos que milhões de pessoas têm se mobilizado contra a ameaça de catástrofe climática. No entanto, a urgência do problema não se reflete nos procedimentos políticos da Suíça. Consideramos que nós, que estamos preocupados com um futuro para todos em que valha a pena viver, estamos sendo deixados para trás. Áreas como a agricultura e o setor financeiro são completamente ignorados na política climática da Suíça, apesar de serem largamente responsáveis pela degradação ambiental e pela crise climática. Ao mesmo tempo, os líderes da economia  ainda estão apegados ao conto de fadas do crescimento eterno. Eles não estão interessados no nosso futuro e só querem aumentar a sua riqueza e influência.

O atual sistema político e econômico falhou completamente em dar uma resposta à crise climática. Temos de nos libertar dos sistemas sociais, econômicos e políticos que exploram o homem e a natureza com o único propósito de enriquecer alguns. É tempo de redefinir a nossa sociedade para que seja possível um futuro ecológico e social.” (Tradução do Autor)

Este pequeno texto coloca o problema com a clareza e a transparência necessárias. Em relação à Suíça, uma única frase deste documento, no capítulo sobre ‘Justiça Climática’, coloca a exigência central com a mesma clareza:

“A Suíça deve reconhecer a sua responsabilidade histórica e global pela crise climática e agir de acordo.”

Nada mais justo. Como era de se esperar, a ação dos jovens ativistas pelo clima, em frente à sede do Governo da Suíça, atraiu a atenção da imprensa, dos políticos e da sociedade em geral. Várias TVs da Suíça, nas principais línguas do país – alemão, francês e italiano – enviaram equipes ao local. 

No acampamento havia um clima de alegria e de paz, muitas cores por todos os lados. Em nenhuma momento a ocupação colocou qualquer impedimento ao funcioanamento do Governo Suíço, não havia bloqueio à entrada do Palácio Federal. Tampouco houve qualquer atividade violenta ou mesmo barulho que pudesse atrapalhar o funcioamento do Parlamento que estava – e ainda está – em sessão.

Porém uma antiga lei da cidade de Berna proíbe manifestações na Praça Federal quando o Parlamento se encontra em sessão. Uma outra lei também proíbe que se acampe na praça.

Os partidos políticos de direita e muitos cidadãos suíços, incomodados pela manifestação dos jovens, passaram a exercer uma agressividade comparável – se não em números, pois a Suíça tem uma população muito menor que a do Brasil, pelo menos em virulência– ao que assitimos com o Bolsonarismo no Brasil. A maioria da imprensa foi  hostil  em relação ao movimento – como no Brasil em relação ao PT… – e vários parlamentares, sob o pretexto das leis que mencionei acima, exigiram que a admistração da cidade de Berna, responsável pela segurança do Palácio Federal e do Parlamento, expulsasse imediatamente os manifestantes. O governo da cidade procurou em primeiro lugar um diálogo com os ativistas, propondo que eles se retirassem. Mas os ativistas anunciaram sua intenção de manter a ocupação até a próxima sexta-feria, com o objetivo de lembrar ao Parlamento em sessão a necessidade de confrontar-se com a realidade das mudanças climáticas. 

Na madrugada desta quarta-feira a força policial invadiu o acampamento e expulsou os manifestantes que resistiram apenas pela não-violência, mantendo-se sentados, cantando, até serem retirados.

A questão da ilegalidade da ocupação foi o tema principal das dicussões, não a questão climática! Alguns bravos parlamentares suíços, em defesa dos ativistas, apontaram para esta contradição, como a Parlamentar do Partido Social -Democrata Jacqueline Badran de Zurique que deu um depoimento ao vivo na TV da Suíça, face a jornalistas que insistiam em perguntar sobre a questão da legalidade da ocupação, ignorando propositadamente a causa do movimento.

É preciso dizer que há muitas coisas que são absolutamente legais mas não são éticas. O acaparamento de fontes de água pela empresa Suíça Nestlé em todo o mundo para o engarrafamento, prudizindo uma enorme quantida de lixo plástico pelo qual a empresa não tem nenhuma responsabilidade,  é absolutamente legal, mas não é ético. A produção e venda de venenos pela empresa Syngenta – que contamina os solos e a água em vários países, que provoca o envenenamento e a morte de inúmeros agricultores e camponeses – é absolutamente legal. E no caso da Syngenta é até mesmo legal que a empresa continue a produzir e exportar para os países do sul tipos de pesticidas declarados ilegais pela Suíça e pela União Européia!

O confronto em Berna entre os ativistas e a lei foi um conflito entre a ética e a legalidade. Há certamente uma ética acima mesmo das leis e os direitos da  natureza e a sobrevivência do planeta  devem ter precedência sobre qualquer outra questão, mesmo de ordem legal.

Por enquanto, nesta batalha na capital da Suíça, a pequenez e a mediocridade venceram a esperança , a alegria e a racionalidade. Não haveria nenhum problema em deixar os manifestantes permancerem pacificamente na Praça Federal e usar a manifestação como uma oportunidade – como vários parlamentares suíços tentaram – de diálogo mais amplo com a juventude e sobre a urgência do problema da mudança climática. Seria uma demonstração de responsabilidade, de preocupação real com o destino do planeta e de cuidado com as futuras gerações.

Mas a histeria capitalista alimentada por parte da imprensa e pela direita suíça, vocejando em todos os meios  e exigindo respeito à LEI e à ORDEM  foi mais forte. Muitos dos parlamentares suíços que defenderam o movimento dos jovens sofreram críticas e agressões inacreditáveis nas redes socias, exatamente como o Bolsonarismo mais exaltado se comporta no Brasil. Pois na base do Bolsonarismo há a mesma histeria capitalista presente em todos os movimentos da extrema direita no mundo, o pânico e a indignação diante de qualquer questionamento sobre a prioridade do capital, a raiva incontida e visceral por quem quer  que ouse defender outras prioridades – seja o meio ambiente, a dignidade do trabalho, os direitos humanos ou o próprio planeta. Pois o capital quer e precisa estar acima de tudo, acima da própria vida. Cabe à natureza se submeter aos ditames do capital, e, junto com a maioria dos seres humanos, curvar-se à exploração capitalista e ao domíno do lucro acima de tudo. Os jovens em Berna defendiam outras prioridades e com sua alegria, inteligência e determinação, apontavam outros caminhos, por isso tinham que ser expulsos. Mas esta foi apenas uma batalha, a luta continua. De um modo ou de outro uma brecha se abriu também na sociedade suíça, o debate vai continuar.

E do Brasil veio uma mensagem de solidariedade inesperada e fundamental para o movimento suíço: uma carta de apoio endereçada ao próprio Governo Suíço, enviada ao Embaixador da Suíça em Berna, assinada por lideranças de alguns dos principais movimentos sociais do Brasil como o MST e por 54 Parlamentares brasileiros. Esta carta já está em poder dos ativistas e de muitos parlamentares e personalidades suíças. (Sobre a carta ver artigo: brasildefato.com.br)

E deste modo nos unimos na luta contra o Bolsonarismo, contra o capitalismo desvairado e histérico, tanto no Brasil como na Suíça. Pelo futuro do Planeta, com generosidade, ternura , coragem e determinação.

Franklin Frederick

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Quem Está por Trás da Juíza que Processa Assange?

Emma Arbuthnot é a Magistrada (Chief Magistrate) que, em Londres, instruiu o julgamento de extradição de Julian Assange para os Estados Unidos, onde aguarda uma condenação de 175 anos de prisão por “espionagem”, ou seja, por ter publicado, como jornalista investigador, provas dos crimes de guerra dos EUA, incluindo vídeos das mortes de civis no Iraque e no Afeganistão.

No processo, atribuído à Juíza Vanessa Baraitser, todos os pedidos de defesa foram rejeitados. Em 2018, depois das acusações de agressão sexual na Suécia caducarem, a Juíza Arbuthnot recusou-se a anular o mandado de prisão, para que Assange não pudesse obter asilo no Equador.

Arbuthnot rejeitou as conclusões do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre a detenção arbitrária de Assange. Também não foram escutadas as do responsável da ONU contra a tortura: “Assange, detido em condições extremas de isolamento injustificado, mostra os sintomas típicos de uma exposição prolongada à tortura psicológica”.

Em 2020, enquanto milhares de detidos foram transferidos para prisão domiciliária como medida anticoronavírus, Assange foi deixado na prisão, exposto ao contágio em condições físicas comprometidas. No tribunal, Assange não pode consultar os advogados, mas é mantido isolado numa gaiola de vidro blindada e ameaçado de expulsão se abrir a boca. O que está por trás dessa persistência?

Arbuthnot tem o título de “Lady”, sendo consorte de Lord James Arbuthnot, um conhecido “falcão” Tory, anterior Ministro das Compras da Defesa, ligado ao complexo militar-industrial e aos serviços secretos. Lord Arbuthnot é, entre outras coisas, Presidente do Conselho Consultivo britânico da Thales, uma multinacional francesa especializada em sistemas militares aeroespaciais e membro da Montrose Associates, especializada em inteligência estratégica (cargos altamente pagos). Lord Arbuthnot faz parte da Henry Jackson Society (HJS), um influente think tank transatlântico ligado ao governo e aos serviços secretos dos EUA.

Em Julho passado, o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, falou numa mesa redonda do HJS em Londres: desde 2017, quando era Director da CIA, ele acusa o WikiLeaks, fundado por Assange, de ser “um serviço de espionagem inimigo”. A mesma campanha é conduzida pela Henry Jackson Society, acusando Assange de “semear dúvidas sobre a posição moral dos governos democráticos ocidentais, com o apoio de regimes autocráticos”. No conselho político da HJS, ao lado de Lord Arbuthnot, estava até recentemente, Priti Patel, a actual Secretária do Interior do Reino Unido, responsável pela ordem de extradição de Assange.

A campanha de extradição de Assange, dirigida por Lord Arbuthnot e outros personagens influentes, está essencialmente ligada a Lady Arbuthnot.

Foi nomeada pela Rainha como * Magistrada Chefe, em Setembro de 2016, depois do WikiLeaks ter publicado, em Março,  os documentos mais comprometedores para os EUA. Entre estes, os emails da Secretária de Estado, Hillary Clinton, que revelam o verdadeiro propósito da guerra da NATO contra a Líbia: impedir que a Líbia usasse as suas reservas de ouro para criar uma moeda pan-africana alternativa ao dólar e ao franco CFA, a moeda imposta pela França às 14 antigas colónias.

O verdadeiro “crime” pelo qual Assange é julgado é o de ter aberto fissuras na parede de silêncio político-mediática que cobre os verdadeiros interesses das elites poderosas as quais, operando no “Estado profundo”, jogam a carta da guerra. É esse poder oculto que sujeita Julian Assange a um processo judicial, instruído por Lady Arbuthnot que, como tratamento ao acusado, recorda os da Santa Inquisição.

Se for extraditado para os EUA, Assange será submetido a “medidas administrativas especiais” muito mais duras do que as britânicas: ficará isolado numa pequena cela, não poderá contactar a família nem falar, nem mesmo por meio de advogados que, se levarem uma mensagem sua, serão incriminados. Por outras palavras, será condenado à morte.

Manlio Dinucci

Artigo original em italiano :

Chi c’è dietro la giudice che processa Assange

il manifesto, 15 de Setembro de 2020

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos

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O Lado Obscuro da 5G: o Uso Militar

A manifestação de 12 de Setembro, em Roma, “Stop 5G” concentra-se, com razão, nas possíveis consequências das emissões electromagnéticas para a saúde e para o meio ambiente, em particular sobre o decreto que impede os prefeitos de regulamentar a instalação de antenas 5G, na área municipal.

No entanto, continua a ignorar-se um aspecto fundamental desta tecnologia: o seu uso militar. Já falamos no il manifesto (10 de Dezembro de 2019), mas com resultados escassos. Os programas sucessivos lançados pelo Pentágono, documentados oficialmente, confirmam o que escrevemos há nove meses.

A “Estratégia 5G”, aprovada em 2 de Maio de 2020, estabelece que “o Departamento de Defesa deve desenvolver e empregar novos conceitos operacionais que utilizem a conectividade ubíqua oferecida pela tecnologia 5G para aumentar a eficácia, resiliência, velocidade e letalidade das nossas forças armadas”.

O Pentágono já está a experimentar aplicações militares desta tecnologia em cinco bases aéreas, navais e terrestres: Hill (Utah), Nellis (Nevada), San Diego (Califórnia), Albany (Geórgia), Lewis-McChord (Washington), Confirmou, em conferência de imprensa, em 3 de Junho, o Dr. Joseph Evans, Director Técnico da 5G, do Departamento de Defesa.

Ele então anunciou que as aplicações militares da 5G. Serão, em breve, serão testadas noutras sete bases: Norfolk (Virginia), Pearl Harbor-Hickam (Hawaii), San Antonio (Texas), Fort Irwin (Califórnia), Fort Hood (Texas), Camp Pendleton (Califórnia), Tinker (Oklahoma).

Os especialistas prevêem que a 5G terá um papel decisivo no desenvolvimento de armas hipersónicas, inclusive as que têm ogivas nucleares: para guiá-las em trajetórias variáveis, a fim de evitar mísseis interceptores, tem de recolher, processar e transmitir muito rapidamente, enormes quantidades de dados. É necessário o mesmo para activar as defesas em caso de ataque com tais armas, confiando nos sistemas automáticos.

A nova tecnologia também terá um papel fundamental na battle network (rede de batalha), sendo capaz de conectar milhões de equipamentos de rádio bidirecionais numa área circunscrita.

O 5G também será extremamente importante para os serviços secretos e para as forças especiais: tornará possível sistemas de espionagem muito mais eficazes e aumentará a letalidade dos drones assassinos.

Essas e outras aplicações militares dessa tecnologia estão, certamente, também a ser estudadas na China e noutros países. O portanto, o que está em curso sobre a 5G não é só uma guerra comercial.

Confirma-o o documento estratégico do Pentágono: “As tecnologias 5G representam capacidades estratégicas determinantes para a segurança nacional dos Estados Unidos e a dos nossos aliados”. É necessário, portanto, “protegê-las dos adversários” e convencer os aliados a fazerem o mesmo para garantir a “interoperabilidade” das aplicações militares da 5G no âmbito da NATO.

Isto explica por que é que a Itália e os outros aliados europeus dos EUA excluíram a Huawei e outras empresas chinesas das licitações para o fornecimento de equipamentos de telecomunicações 5G.

“A tecnologia 5G – explica o Dr. Joseph Evans numa conferência de imprensa, no Pentágono – é vital para manter as vantagens militares e económicas dos Estados Unidos”, não só contra os seus adversários, principalmente a China e a Rússia, mas também contra os próprios aliados.

Por esta razão “o Departamento de Defesa está a trabalhar estreiramente estreita com parceiros industriais, que investem centenas de biliões de dólares em tecnologia 5G, a fim de explorar esses investimentos maciços para aplicações militares de 5G”, incluindo “aplicações de dupla utilização” militares e civis.

Por outras palavras, a rede comercial 5G, construída por empresas privadas, é usada pelo Pentágono com uma despesa custo menor do que seria necessário se a rede fosse construída apenas para fins militares.

Serão os utentes comuns – a quem as multinacionais 5G venderão seus serviços – a pagar pela tecnologia que, como prometem, deve “mudar as nossas vidas”, mas que ao mesmo tempo será utilizada para criar armas de nova geração para uma guerra que significará o fim das gerações humanas.

Manlio Dinucci

Artigo original em italiano :

Il lato oscuro del 5G: l’uso militare

il manifesto, 8 de Setembro de 2020

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos

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Índia implode a própria Nova Rota da Seda

Houve época em que a Índia vendia orgulhosamente a noção de que estabelecia uma Nova Rota da Seda só dela – a qual, partindo do Golfo de Omã para a intersecção da Ásia Central e do Sul, permitiria acesso de Irã, Afeganistão e Ásia Central ao Mar da Arábia – competindo com a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) da China.

Hoje, é como se a Índia se autoesfaqueasse pelas costas.

Teerã e Nova Delhi assinaram acordo em 2016 para construir ferrovia de 628 quilômetros, do estratégico porto iraniano de Chabahar até a cidade de Zahedan, no interior, muito perto da fronteira afegã, com uma extensão crucial para Zaranj, no Afeganistão, e adiante.

Estavam envolvidas nas negociações as companhias Iranian Railways e Indian Railway Constructions Ltd. Mas nada aconteceu, devido à morosidade indiana. Assim, Teerã resolveu construir a ferrovia, fosse como fosse, com $400 milhões de dólares de seus próprios fundos e conclusão marcada para março de 2022.

Previa-se que a ferrovia viesse a ser o principal corredor de transporte ligado a substanciais investimentos indianos em Chabahar, seu porto de entrada para o Golfo de Omã, como Nova Rota da Seda alternativa, para o Afeganistão e Ásia Central.

A modernização de infraestrutura das ferrovias e estradas a partir do Afeganistão para seus vizinhos Tajiquistão e Uzbequistão seria o próximo passo.

Toda a operação estava inscrita num acordo trilateral Índia-Irã-Afeganistão assinado em 2016 em Teerã pelo Primeiro Ministro Narendra Modi, o Presidente iraniano Hassan Rouhani e o então Presidente afegão Ashraf Ghani.

As desculpas não oficiais de Nova Delhi giram em torno do medo de que o projeto fosse atacado pelos EUA, com sanções. Nova Delhi conseguiu que o governo Trump suspendesse as sanções contra Chabahar e contra a ferrovia até Zahedan. O problema foi convencer uma gama de investidores parceiros, todos aterrorizados pelo risco de sofrerem sanções.

A verdade é que toda a saga tem mais a ver com o pensamento desejante de Modi, que conta com receber tratamento preferencial, nos termos da estratégia do governo Trump para o Indo-Pacífico, que se baseia de fato num Quad (“Quarteto”)  EUA, Índia, Austrália e Japão,  estrutura destinada a conter a China. Esta é a causa de Nova Delhi ter decidido cortar as importações de petróleo do Irã.

Assim, para todos os efeitos práticos, a Índia jogou o Irã debaixo do ônibus. Não é de admirar que o Irã tenha resolvido avançar por conta própria, especialmente agora que está escorado pelo “Plano Abrangente de Parceria Estratégica entre a República Islâmica do Irã e a República Popular da China” (ing. Comprehensive Strategic Partnership between I.R. Iran, P.R. China), acordo de $400 bilhões de dólares e duração de 25 anos, e que sela a parceria estratégica entre China e Irã.

Neste caso, podem ficar sob o controle chinês duas “pérolas” estratégicas no Oceano Índico, a apenas 80 quilômetros de distância uma da outra: Gwadar, no Paquistão, entroncamento chave do Corredor Econômico China-Paquistão (ing. China-Pakistan Economic Corridor, CPEC) de $60 bilhões de dólares; e Chabahar.

Até agora, Teerã nega que o porto de Chabahar venha a ser arrendado a Pequim. Mas há possibilidade real, além dos investimentos chineses numa refinaria de petróleo perto de Chabahar, e, mesmo, no longo prazo, no próprio porto, de uma ligação operacional entre Gwadar e Chabahar. Essa ligação seria complementada pelos chineses que operariam o porto de Bandar-e-Jask, no Golfo de Omã, 350 quilômetros a oeste de Chabahar e muito perto do hiperestratégico Estreito de Ormuz.

Corredores são sempre atraentes

Nem alguma divindade indiana em surto de ressaca conseguiria imaginar “estratégia” mais contraproducente para os interesses indianos, caso Nova Delhi realmente recue da decisão de cooperar com Teerã.

Consideremos o essencial: Teerã e Pequim estarão trabalhando no que, de fato, é expansão massiva do Corredor Econômico China Paquistão, com Chabahar conectado a Gwadar e a seguir à Ásia Central e ao Mar Cáspio, pelas ferrovias iranianas. Estará também ligado à Turquia e ao Mediterrâneo Oriental, via Iraque e Síria, diretamente até a União Europeia.

Esta progressão capaz de mudar o jogo acontecerá no coração de todo o processo de integração da Eurásia – unindo China, Paquistão, Irã, Turquia e, claro, a Rússia, que já está ligada ao Irã pelo Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul (ing. International North-South Transport Corridor).

Por enquanto, dadas as reverberações potentes em múltiplas áreas – melhoramento da infraestrutura energética, reformas de portos e refinarias, construção de um corredor de conectividade, investimentos na indústria manufatureira e suprimento pesado de petróleo e gás (questão de segurança nacional para a China) – não há dúvidas de que o acordo Irã-China está mesmo, no momento, sendo minimizado por ambos os lados.

Legenda: Vista aérea do porto iraniano de Chabahar que pode mudar de patrocinador: da Índia para a China.

As razões são autoevidentes – evitar que a ira da administração Trump suba a níveis ainda mais incandescentes, dado que ambos os atores são considerados pelos EUA como “ameaças existenciais”. Mesmo assim, Mahmoud Vezi, chefe de gabinete do Presidente Rouhani, garante que o acordo final Irã-China será assinado em março de 2021.

Enquanto isso, o Corredor Econômico China-Paquistão vai de vento em popa. O que Chabahar supostamente faria para a Índia, já está a pleno vapor em Gwadar. O trânsito comercial para o Afeganistão começou há dias, com cargas a granel vindas dos Emirados Árabes Unidos. Gwadar já começou a estabelecer-se como entroncamento chave no trânsito para o Afeganistão, muito adiante de Chabahar.

O fator estratégico é essencial para Cabul. O país depende de rotas por terra a partir do Paquistão – e algumas podem ser muito inseguras – assim como de Karachi e Porto Qasim. Especialmente para o sul do Afeganistão, a ligação por terra desde Gwadar, cruzando o Baluquistão é muito mais curta e segura.

O fator estratégico é ainda mais vital para Pequim. Para a China, Chabahar não seria prioridade, porque o acesso para o Afeganistão é mais fácil via Tadjiquistão, por exemplo.

Mas a história muda completamente, quando se trata de Gwadar – que se vai convertendo, lenta, mas firmemente, no principal entroncamento da Rota da Seda Marítima, conectando a China e o Mar da Arábia, o Oriente Médio e a África. Islamabad já está recolhendo recursos robustos, em impostos e taxas de passagem.

Resumindo, é jogo de ganha-ganha, mas sempre considerando que desafios e protestos a partir do Baluquistão não vão simplesmente desaparecer, e exigem de Pequim e Islamabad gestão muito cuidadosa.

Para a Índia, o caso de Chabahar-Zahedan não é o único retrocesso recente. O Ministro de Relações Exteriores indiano admitiu recentemente que o Irã desenvolverá “sozinho” o enorme campo de gás Farzad-B no Golfo Pérsico; e que a Índia pode vir a juntar-se à República Islâmica “de forma apropriada em estágio posterior”. O mesmo tipo de “estágio posterior” aplicado por Nova Delhi para Chabahar-Zahedan.

Os direitos de produção e exploração de Farzad-B já foram garantidos há anos para a empresa estatal indiana ONGC Videsh Limitada. Mas aí, mais uma vez, nada acontece, por efeito do proverbial fantasma das sanções.

Vale lembrar que essas sanções já estavam ativadas no governo de Barack Obama. Mesmo assim, naquela época Índia e Irã pelo menos comerciavam bens por petróleo. Projetava-se que Farzad-B voltaria a operar depois da assinatura do JCPOA (chamado “Acordo do Irã”) em 2015. Mas então as sanções de Trump, outra vez, tudo congelaram.

Não é preciso ser mestre e doutor em Ciência Política para saber quem pode acabar por tomar Farzad-B: a China, especialmente depois que, ano que vem, for assinado o acordo de parceria para os próximos 25 anos.

Contra seus próprios interesses energéticos e geoestratégicos, a Índia na realidade ficou reduzida ao status de mero refém da administração Trump. O objetivo verdadeiro dessa política de dividir para reinar aplicada contra Irã e Índia é impedir que os dois países comerciem usando as respectivas moedas, deixando o EUA-dólar fora do processo, especialmente nos negócios de energia.

O grande quadro, no entanto, sempre tem a ver com o avanço da Nova Rota da Seda através da Eurásia. Com evidências crescentes de integração cada vez mais forte entre China, Irã e Paquistão, o que se vê claramente é que a Índia só permanece integrada com as próprias inconsistências.

Pepe Escobar

Artigo original em inglês : 

India Implodes Its Own New Silk Road

Asia Times, 2 de Setembro de 2020

Traduzido ao português, com permissão do autor. Tradução por Roberto Pires Silveira

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Apelo Aos Dirigentes Dos Nove Estados Detentores De Armas Nucleares (China, França, Índia, Israel, Coreia do Norte, Paquistão, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos da América)

Nós, pessoas de boa vontade, de todas as etnias e de todas as classes socioeconómicas,  a viver em todos os continentes e a professar credos e religiões distintas, dirigimos a vossa atenção para a ameaça de uma guerra nuclear total que pode explodir facilmente, devido a acções deliberadas de qualquer Estado detentor de armas nucleares ou devido a erro não intencional, humano, técnico ou a qualquer outro.

Constatamos que, recentemente, o limiar do uso de armas nucleares num ataque limitado ou em grande escala, tornou-se drasticamente reduzido, levando o mundo inteiro à iminência de um Armagedom nuclear.

Muitas oficiais de alta patente e militares e autoridades civis, políticos e especialistas falam, abertamente, sobre a possibilidade de usar, sob muitos pretextos, armas nucleares com cargas nucleares de baixo ou alto rendimento, num ‘first strike’ contra qualquer nação.

De facto, devido a razões duvidosas e a explicações ilógicas, os Estados Unidos retiraram-se de uma série de tratados e acordos bastante conhecidos e úteis, sobre o controlo de armas nucleares.

Os veículos de transporte de armas nucleares estão a tornar-se cada vez mais sofisticados, mais rápidos e mais precisos. Foram programados para obter uma combinação perigosa de armas que abrangem armas nucleares estratégicas e tácticas, com técnicas de defesa antimíssil e capacidades convencionais, e com a possibilidade de colocar armas de ataque no Espaço, incluindo sistemas de defesa anti-míssil e armas anti-satélite.

Muitos exercícios militares que antes eram programados com o uso de armas convencionais, estão a ser transformados gradualmente, em exercícios que usam armas nucleares simuladas.

Os peritos em armas nucleares calculam que, durante um ataque nuclear inicial intenso, pelo menos 34 milhões de pessoas morrerão imediatamente e 57 milhões de pessoas receberão ferimentos e lesões múltiplas que causarão dores horríveis, sofrimento, todas as doenças causadas pela radiação nuclear e morte. Além disso, vários tipos de infraestruturas, a flora e a fauna, as centrais nucleares, os recursos hídricos – incluindo a água potável e as barragens hidroeléctricas – serão fortemente danificados ou completamente destruídos por enormes tempestades de fogo, pela vasta contaminação nuclear, por explosões poderosas e por terremotos.

Mas o que acabamos de descrever é apenas o impacto imediato. O inverno nuclear que seria criado até mesmo por uma guerra nuclear limitada, aterrorizaria toda a Humanidade com a fome e com outros riscos mortais.

Nós, que assinamos voluntariamente este apelo, aconselhamo-vos, na qualidade de dirigentes das nove nações nucleares, a concretizar as seguintes acções em 2020:

Primeiro, como passo inicial que conduz ao desarmamento nuclear abrangente e irreversível, à escala mundial,comprometerem-se a não usar e a denunciar qualquer tipo de uso de arma nuclear num ‘first strike’contra qualquer nação, em qualquer momento.

Segundo, comprometerem-se a assinar e ratificar o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares com o compromisso subsequente especificado na cláusula a seguir.

Terceiro, comprometerem-se desmontar irreversivelmente todas as armas nucleares até 6 de Agosto de 2045, ou antes dessa data – em todos os nove Estados que possuem armas nucleares, em fases cuidadosamente controladas e por meio de mecanismos de inspecção bem desenvolvidos e mutuamente aceitáveis, desde que todos os Estados com armas nucleares sigam, simultanea e honestamente, este padrão.

Assinado pessoalmente por mim, como manifestação da minha boa vontade

Assinatura  ………..

Residente na República Estado) de……………

em (data) ………………………. 2020.

Por favor copie e cole este documento num email e envie para

[email protected]

ou

[email protected]

Com o nosso profundo agradecimento.

*   *   *   *

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China: Tudo Corre Como Planejado

Todo mês de agosto a liderança do Partido Comunista Chinês converge para a cidade de Beidaihe, um resort à beira-mar a duas horas de distância de Pequim, a fim de discutir políticas importantes que se fundem posteriormente em planejamento estratégico crucial que será depois aprovado na sessão plenária do Comitê Central do Partido em outubro.

Ninguém menos que Mao, o Grande Timoneiro, estabeleceu o ritual em Beidaihe, cidade que ele amava e onde, não por acaso, o Imperador Qin, unificador da China no século terceiro antes de Cristo mantinha um palácio.

Como até agora o ano de 2020 é notoriamente o Ano de Viver Perigosamente, não é surpresa nenhuma que neste ano, nada havia para ver em Beidaihe. Mesmo assim, essa invisibilidade não significa que nada aconteceu.

Prova 1: o premiê Li Keqiang simplesmente desapareceu das vistas do público por quase duas semanas – depois que o presidente Xi Jinping comandou uma reunião crucial do Politburo no final de julho onde se definiu nada menos que todo o desenvolvimento estratégico chinês para os próximos 15 anos.

Li Keqiang reapareceu para coordenar uma sessão especial do todo-poderoso Conselho de Estado, justo quando o principal ideólogo do Partido Comunista Chinês, Wang Huning – número 5 do Politburo – surgiu como convidado especial em um encontro da Federação da Juventude Chinesa (ACYF [All China Youth Federation], na sigla em inglês – NT).

Ainda mais intrigante, lado a lado com Wang, poder-se-ia encontrar Ding Xuexiang, nada menos que o Chefe de Gabinete do Presidente Xi, assim como outros três membros do Politburo.

Nesta espécie de “agora estou aqui, agora não estou mais” o fato de que todos surgiram ao mesmo tempo, depois de uma ausência de quase duas semanas, levou astutos observadores chineses a concluir que Beidaihe na realidade aconteceu. Mesmo que nenhuma ação política tenha sido detectada à beira-mar. A dica semioficial é que, por causa da Covid-19 não houve reuniões presenciais ou confraternizações.

Porém, é a prova 2 que pode ser definitiva. O já famoso encontro do Politburo no final de julho, liderado por Xi Jinping, delineou de fato a sessão plenária do Comitê Central em outubro. Tradução: os contornos do roteiro que será seguido já tinham sido aprovados por consenso. Não havia necessidade de outras discussões em Beidaihe.

Política oficial ou balões de ensaio?

O caldo entorna quando se considera uma série de balões de ensaio que começaram a surgir poucos dias depois na mídia chinesa. Mostro alguns pontos principais:

  1. No front da guerra comercial, Pequim não expulsará as companhias (norte)americanas já operando na China, mas aquelas que querem entrar nos mercados financeiros, de informação tecnológica e de serviços de saúde e educação não serão aprovadas.
  2. Pequim não se desfará de uma vez só da esmagadora quantia de títulos do Tesouro (norte)americano que detém, porém – como já acontece – acelerará a alienação dos ativos. Ano passado, o total ficou em $100 bilhões de dólares. Prevê-se que até o final de 2020 o total pode chegar a $300 bilhões.
  3. Previsivelmente, também será acelerada a internacionalização do Yuan. No pacote, a configuração final dos parâmetros para a compensação de dólares dos Estados Unidos através do sistema chinês CIPS – já prevendo a possibilidade vulcânica de que Pequim seja expulsa do sistema SWIFT pela administração Trump ou seja lá quem for a ocupar a Casa Branca após janeiro de 2021.
  4. No que foi amplamente interpretado através da China como o front da “guerra de amplitude total”, principalmente híbrida, o Exército de Liberação Popular (People’s Liberation Army – PLA, na sigla em inglês – NT) foi colocado em alerta 3 – e todas as licenças foram canceladas até o final de 2020. Aceleração do desenvolvimento de armas nucleares e aumento do gasto com a defesa até 4% do PIB serão objetos de esforço conjunto da nação. Os detalhes deverão ser entregues durante o encontro do Comitê Central em outubro.
  5. Colocar-se-á ênfase total no espírito chinês de autossuficiência independente e na construção do que pode ser definido como o sistema de “circulação econômica dupla”: consolidação do projeto de integração eurasiana paralelamente com a instalação do mecanismo de liquidez global do Yuan

No cerne desse caminho existe o que foi descrito como “o abandono firme de todas as ilusões quanto aos Estados Unidos e a condução de mobilização de guerra do povo chinês. Temos que promover a batalha para resistir às agressões dos Estados Unidos (…) a mentalidade de guerra orientará a condução da economia nacional (…) estejam preparados para a completa interrupção das relações com os Estados Unidos.”

Pelo que se observa até agora, ainda não está claro se são apenas balões de ensaio lançados para a opinião pública chinesa ou decisões reais alcançadas pela Beidaihe “invisível”. Assim, todos os olhos estão postos na forma pela qual essa tremenda configuração será apresentada quando o Comitê Central trouxer à luz seu planejamento estratégico em outubro. Significativamente, acontecerá faltando apenas algumas semanas para as eleições nos Estados Unidos.

É tudo uma questão de não parar

Todo o exposto até aqui espelha um debate recente em Amsterdã sobre o que configura a “ameaça” chinesa ao ocidente. Aqui, alguns pontos principais.

  1. A China nunca se cansa de reforçar seu modelo econômico híbrido – uma absoluta raridade global: nem totalmente público, nem economia de mercado.
  2. É espantoso o nível do patriotismo chinês: uma vez que o país esteja encarando inimigo externo, 1,4 bilhões de pessoas agem em uníssono.
  3. Mecanismos nacionais tem força tectônica: absolutamente nada consegue parar o uso total dos recursos financeiros, materiais e humanos uma vez estabelecida determinada política.
  4. A China conseguiu instalar o mais abrangente sistema industrial contínuo do planeta, sem interferência estrangeira, mesmo eventualmente necessária (bem, restaram algumas questões relativas a semicondutores para a Huawei resolver).

O planejamento da China alcança décadas, não apenas anos. Planos quinquenais são complementados por planos para uma década e até para os próximos 15 anos, como mostrou o encontro presidido por Xi Jinping. A Inciativa Cinturão e Estrada (BRI, na sigla em inglês [Belt and Road Initiative] – NT) foi pensado com um plano para realização em quase 40 anos, concebido em 2013 para ser finalizado em 2049.

E o nome do jogo é continuidade – quando se pensa que os Cinco princípios da coexistência pacífica, desenvolvidos nos idos de 1949 e depois expandidos por Zhou Enlai na Conferência de Bandung em 1955, são as inabaláveis guias orientadoras da política externa do país.

O grupo independente coletividade Qiao que viabiliza o papel de qiao (ponte) junto aos huaqiao (“chineses de além mar”), estrategicamente importantes, acerta na mosca quando destaca que Pequim jamais promoveu o modelo chinês como solução para os problemas globais. Do que o país se orgulha é das soluções chinesas para condições específicas do país.

Também destacam a força da argumentação de que o materialismo histórico é incompatível com a democracia liberal capitalista, que força austeridade e mudança de regime em sistemas nacionais, impondo modelos preconcebidos.

Isso sempre leva de volta ao núcleo da política externa do Partido Comunista Chinês: cada nação deve traçar o seu próprio curso, dadas as condições nacionais.

Assim, emergem todos os contornos do que pode ser descrito racionalmente como uma Meritocracia Centralizada com Características Socialistas Confucianas: um paradigma civilizacional diferente, que a “nação indispensável” ainda se recusa a aceitar e que com certeza não conseguirá abolir através de Guerra Híbrida.

Pepe Escobar

Artigo original em inglês :

China: Everything Proceeding According to Plan, Complete Interruption of Relations with US?

asiatimes.com

Tradução de btpsilveira

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